quinta-feira, 26 de agosto de 2010

ÉTICA CRISTÃ NO SERMÃO DA MONTANHA por Prof. Rev. Gildásio Reis (Th.M)

Introdução: Uma das melhores sínteses da ética de Jesus está contida no Sermão da Montanha, como tem sido comumente chamado (Mateus Caps. 5 a 7). Os seus discípulos devem caracterizar-se pela humildade, mansidão, misericórdia, integridade, busca da justiça e da paz, pelo perdão, pela veracidade, pela generosidade e acima de tudo pelo amor.
O Sermão do monte forma um todo maravilhosamente coerente. Descreve o comportamento que Jesus espera de cada um dos seus discípulos, que são também cidadãos do reino de Deus. Talvez uma rápida análise do Sermão ajude a demonstrar a sua relevância para nós, no século vinte.[1]

A. O caráter do cristão (5:3-12): As bem-aventuranças enfatizam oito sinais principais da conduta e do caráter cristãos, especialmente em relação a Deus e aos homens, e as bênçãos divinas que repousam sobre aqueles que externam estes sinais.

B. A influência do cristão (5:13-16): As duas metáforas do sal e da luz indicam a influência que os cristãos devem exercer para o bem na comunidade se (e tão somente se) mantiverem o seu caráter distinto, conforme descrito nas bem-aventuranças.

C. A justiça do cristão (5:17-48): Qual deve ser a atitude do cristão para com a lei moral de Deus ? Ficaria a lei propriamente dita abolida na vida cristã, como estranhamente afirmam os advogados da filosofia da “nova moralidade” e da escola dos “não-mais-sob-a-lei” ? Não. Jesus não tinha vindo para abolir a lei e os profetas, disse ele, mas para cumpri-los. E mais, ele chegou a declarar que a grandeza no reino de Deus se media pela conformidade com os ensinamentos morais da lei e dos profetas, e que até mesmo entrar no reino dos céus era impossível sem uma justiça maior do que a dos escriba e fariseus (5:17-20). Jesus deu, então seis ilustrações desta justiça cristã melhor (5:21-48) relacionando-a com o homicídio, com o adultério, com o divórcio, com o juramento, com a vingança e com o amor. Em cada antítese (“Ouviste o que foi dito... eu, porém, vos digo...”), rejeitou a acomodada tradição dos escribas, reafirmou a autoridade das Escrituras do Velho Testamento e apresentou as decorrências plenas e exatas da lei moral de Deus.

D. A piedade do cristão (6:1-18): Em sua “piedade” ou devoção religiosa, os cristãos não devem se acomodar nem com o tipo hipócrita dos fariseus, nem com o formalismo mecânico dos pagãos. A piedade cristã deve destacar-se acima de tudo pela realidade, pela sinceridade dos filhos de Deus que vivem na presença de seu Pai celestial.

E. A ambição do cristão (6:19-34): O “mundanismo” do qual os cristãos devem fugir pode ter aparência religiosa ou secular. Por isso, devemos ser diferentes dos não – cristãos, não apensas em nossas devoções, mas também em nossas ambições. Cristo modifica especialmente a nossa atitude para com a riqueza e os bens materiais. É impossível adorar a Deus e ao dinheiro; temos de escolher um dos dois. As pessoas do mundo estão preocupadas com a busca do alimento, da bebida e do vestuário. Os cristãos devem ficar livres destas ansiedades materiais ego-centralizadas e, em lugar disso, devem dedicar-se à expansão do governo e da justiça de Deus. É o mesmo que dizer que a nossa ambição suprema deve ser a glória de Deus e não a nossa própria glória, nem mesmo o nosso próprio bem-estar material. É uma questão do que buscamos “em primeiro lugar”.

F. Os relacionamentos do cristão (7:1-20): Os cristãos estão presos em uma complexa teia de relacionamentos, todos eles partindo do nosso relacionamento com Cristo. Quando nos relacionamos devidamente com ele, os nossos demais relacionamentos são todos afetados. Novos relacionamentos surgem, e os antigos se modificam. Assim, não devemos julgar o nosso irmão, mas servi-lo (vs 1-5). Devemos também evitar oferecer o evangelho àqueles que decididamente o rejeitam (v.6); devemos continuar orando ao nosso Pai celestial (vs.7:12) e tomar cuidado com os falsos profetas, que impedem que muita gente encontre a porta estreita e o caminho difícil (vs.13-20).

G. Uma dedicação cristã (7:21-27): O último item apresentado pelo todo do Sermão relaciona-se com a autoridade do pregador. Não basta chamá-lo de “Senhor” (vs.21-23) ou ouvir os seus ensinamentos (vs.24-27). A questão básica é se nós somos sinceros no que dizemos e se fazemos o que ouvimos. Deste compromisso depende o nosso destino eterno. Só quem obedece a Cristo como Senhor é sábio. Pois quem assim procede está edificando a sua casa sobre o alicerce da rocha, que as tempestades da adversidade e do juízo não serão capazes de solapar.

As multidões ficaram perplexas com a autoridade com que Jesus ensinava (vs.28,29). É uma autoridade à qual os discípulos de Jesus de cada geração devem submeter-se. A questão do senhorio de Cristo é relevante hoje em dia, tanto com referência a princípios como à aplicação prática, da mesma maneira que o era quando originalmente ele pregou o Sermão do Monte.

CAPÍTULO 1

O Caráter do Cristão: As Bem-Aventuranças

As bem-aventuranças descrevem o caráter equilibrado e diversificado do povo cristão. São oito qualidades que cada cristão deve ter. Cada qualidade foi elogiada, enquanto cada pessoa que a possui foi declarada “bem-aventurada”. A palavra grega makarios significa “feliz”. O homem que reagir ao seu ambiente com esse espírito terá uma vida feliz. As promessas de Jesus nas bem-aventuranças têm cumprimento presente e futuro.

As bem-aventuranças não podem ser vistas como uma “nova lei” deixada por Jesus para alcançarmos a salvação. A salvação é pela graça.

As quatro primeiras bem-aventuranças descrevem o relacionamento do cristão com Deus, e as outras quatro, o seu relacionamento e deveres para com o próximo.

1. Os humildes de espírito (v.3)

Humilde dependência de Deus. O que sabe que não têm capacidade de salvar-se a si mesmo e que, por isso, busca a salvação em Deus, reconhecendo que não tem direito à mesma.

Ser “humilde (pobre) de espírito” é reconhecer nossa pobreza espiritual ou, falando claramente, a nossa falência espiritual diante de Deus, pois somos pecadores, sob a santa ira de Deus, e nada merecemos além do juízo de Deus.

Esses, e tão somente esses, recebem o reino de Deus. Pois o reino de Deus que produz salvação é um dom tão absolutamente de graça como imerecido.

2- Os que choram (v.4)

Não são os que choram a perda de uma pessoa querida, mas aqueles que choram a perda de sua inocência, de sua justiça, de seu respeito próprio, Cristo não se refere a tristeza do luto, mas a tristeza do arrependimento. Uma coisa é ser espiritualmente pobre e reconhecê-lo; outra é entristecer-se e chorar por causa disto. Confissão é uma coisa, contrição é outra.

Precisamos, então, notar que a vida cristã, de acordo com Jesus, não é só alegria e risos. Jesus chorou pelos pecados de outros, pela maldade do mundo. Nós também deveríamos chorar mais pela maldade do mundo. “Torrentes de água nascem dos meus olhos, porque os homens não guardam a tua lei.” - (SL 119:136). Mas não apenas os pecados dos outros que deveriam nos levar as lágrimas, pois temos os nossos próprios pecados para chorar.

Tais pessoas que choram, que lamentam a sua própria maldade, serão consoladas pelo único consolo que pode aliviar o seu desespero, isto é, o perdão da graça de Deus.

3. Os mansos (v.5)

Gentil, humilde, atencioso, cortês e, portanto, o que exerce autocontrole, sem o qual estas qualidades seriam impossíveis.

Essas pessoas “mansas”, Jesus acrescentou, “herdarão a terra”. Era de se esperar o contrário. Pois achamos que as pessoas “mansas” nada conseguem porque são ignoradas por todos. São os valentões, os arrogantes, que vencem a luta pela existência. Mas a condição pela qual tomamos posse de nossa herança espiritual em Cristo não é a força, mas a mansidão. “Não te indignes por causa dos malfeitores, nem tenhas inveja dos que praticam a iniqüidade.” - (SL 37:1) “Mas os mansos herdarão a terra e se deleitarão na abundância de paz.” - (SL 37:11) “Aqueles a quem o SENHOR abençoa possuirão a terra; e serão exterminados aqueles a quem amaldiçoa.” - (SL 37:22) “Espera no SENHOR, segue o seu caminho, e ele te exaltará para possuíres a terra; presenciarás isso quando os ímpios forem exterminados.” - (SL 37:34).

Portanto, o caminho de Cristo é diferente do caminho do mundo, e cada cristão, mesmo sendo como Paulo e “nada tendo”, pode dizer-se “possuindo tudo” (2 Co.6:10). Conforme Rudolf Stier: “A auto-renúncia é o caminho para o domínio do mundo.”

4. Os que tem fome e sede de justiça (v.6)

Fome espiritual é uma característica do povo de Deus, cuja ambição suprema não é material, mas espiritual.

É preciso ter, uma fome e sede de justiça que jamais possam ser reprimidas, ou sustadas, ou saciadas, que não procurem nada e não se importem com nada a não ser com a realização e a manutenção do que é justo, desprezando tudo o que possa impedir a sua consecução.

Talvez não exista um segredo maior no progresso da vida cristã do que um apetite sadio e robusto.Se estamos conscientes de um crescimento lento, não será devido a um apetite embotado? Não basta chorar o pecado cometido no passado; precisamos também ter fome de justiça futura. “Pois dessedentou a alma sequiosa e fartou de bens a alma faminta.” - (SL 107:9)

5. Os misericordiosos (v.7)

“Misericórdia” é compaixão pelas pessoas que passam necessidade. É ter compaixão pelos outros, pois eles também são pecadores. Nosso Deus é um Deus misericordioso e dá provas de misericórdia continuamente; os cidadãos do seu reino também devem demonstrar misericórdia. O mundo prefere isolar-se da dor e da calamidade dos homens. Acha que a vingança é deliciosa e que o perdão é sem graça quando comparado a ela. Mas os que demonstram misericórdia encontram misericórdia. (Mt.18:21-35)

6. Os limpos de coração (v.8)

Expressão de pureza interior, a qualidade daqueles que foram purificados da imundície moral. “Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito inabalável.” - (SL 51:10) “O Senhor, porém, lhe disse: Vós, fariseus, limpais o exterior do copo e do prato; mas o vosso interior está cheio de rapina e perversidade.” - (LC 11:39).

Portanto, os limpos de coração são os inteiramente sinceros. Toda a sua vida, pública e particular, é transparente diante de Deus e dos homens.

Só os limpos de coração verão a Deus, vêem-no agora com os olhos da fé e, no porvir, verão a sua glória.

7. Os pacificadores (v.9)

Cada cristão tem de ser um pacificador, tanto na igreja como na sociedade. Jamais deveríamos nós mesmos procurar o conflito ou ser responsáveis por ele. pelo contrário, somos chamados para pacificar, devemos ativamente “buscar” a paz, “seguir a paz com todos” e, até onde depender de nós, “ter paz com todos os homens” (1 Co.7:15; 1 Pe.3:11; Hb.12:14; Rm 12:18).

Os pacificadores serão chamados filhos de Deus, pois estão procurando fazer o que seu Pai fez.

8. Os perseguidos por causa da justiça (vs.10-12)

Por mais que nos esforcemos em fazer a paz com determinadas pessoas, elas se recusam a viver em paz conosco. Nem todas as tentativas de reconciliação têm sucesso. Na verdade, alguns tomam a iniciativa de opor-se a nós e, particularmente, de nos injuriar e perseguir. Não por causa de nossas fraquezas ou idiossincrasias, mas “por causa da justiça”.

Como Jesus esperava que os seus discípulos reagissem diante da perseguição? O v.12 diz: regozijai-vos e exultai! Não devemos nos vingar como o incrédulo, nem ficar de mal humor como uma criança, nem lamber nossas feridas com auto-piedade como um cão, nem simplesmente sorrir e suportar tudo como um estóico, e muito menos fazer de conta que gostamos disso como um masoquista. Devemos nos regozijar como cristãos. Por quê? Em parte porque, Jesus acrescentou, é grande o vosso galardão nos céus (v.12a). Podemos perder tudo aqui na terra, mas herdaremos tudo nos céus. Também porque a perseguição (por causa da justiça) é um sinal de genuinidade, um certificado de autenticidade cristã, “pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós” (v.12b). Mas o motivo principal é porque estamos sofrendo, disse ele, por minha causa (v.11), por causa de nossa lealdade para com Ele e para com os seus padrões de verdade e justiça.

Conclusão: As bem-aventuranças pintam um retrato compreensivo do discípulo cristão. Primeiro, vemo-lo de joelhos diante de Deus, reconhecendo sua pobreza espiritual e chorando por causa dela. Isto o torna manso ou gentil em todos os seus relacionamentos, considerando que a honestidade o compele a permitir que os outros pensem dele aquilo que, diante de Deus, já confessou. Mas longe dele aquiescer em seu pecado, pois ele tem fome e sede de justiça; anseia crescer na graça e na bondade. Vemo-lo, depois junto aos outros, lá fora, na comunidade humana. Seu relacionamento com Deus não o faz fugir da sociedade nem o isola do sofrimento do mundo. Pelo contrário permanece no meio deste, demonstrando misericórdia àqueles que foram golpeados pela adversidade e pelo pecado. Ele é transparente, sincero em todos os seus relacionamentos e procura desempenhar um papel tão construtivo como pacificador. Mas ninguém lhe agradece pelos esforços; antes , é hostilizado, injuriado, insultado e perseguido por causa da justiça que defende e por causa do Cristo com o qual se identifica. Tal é o homem ou a mulher que é “bem-aventurado”, isto é que tem a aprovação de Deus e alcança realização própria como ser humano.

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